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Nem mais e nem menos 
Di amantes –Eva, outro dia você falou que ia passar a me chamar de Bem, e o tem feito, e eu vou tratar você de Bema ou Benha? –Por favor, da mesma forma... bem! Olha, Adão, você vem me passando a perna. Falei de procurar as pedras redondas nas montanhas ou nas cachoeiras. Se é coisa para comprar, é só ver quem vende e vamos trocar com o que você tira na roça; não temos dinheiro e nem sabemos imprimi-lo. –Minha mulher, você quer adiantar-se tanto no tempo... Queridas e queridos amigos, cansado deste jurássico UOL mudei de "corpo e alma", alô Loba, acompanhando a inteligência de vocês: http://djaegger.blogspot.com/Até lá.
Escrito por Dácio Jaegger às 21h46
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Nem mais e nem menos 
Quero ter filhotes como os passarinhos -Eva, seus mamás estão crescendo novamente, já estão de bom tamanho, sua barriga segue o mesmo caminho. Sabemos o que vai sair deles, o leite e dela mais um Caim, porque é repetição. Não há como errar, já sou expert e tenho observado por aí que todos os bichos são assim, enchem a barriga depois botam para fora suas crias. –É sabidão, com certeza vem outro. E você conversou com algum bicho para saber o que eles fazem para isto acontecer; será que é alguma coisa especial que comem, tipo... plantas, bichinhos, terra, pedrinhas? -Eva, os bichos falam, mas não entendo nadica de nada de pitibiriba; escuto com muita atenção mas não tem jeito, e depois, falam gritando, de longe, muitos falam ao mesmo tempo. Entendimento com eles acho que só quando houver um software de tradução e interpretação. –Esquece, Adão, outro dia você falou que todos os bichos cospem suas crias, mas você está errado, uns fazem isto, mas outros não. Alguns já vimos cuspindo, mas e outros que não vimos? –Eu? –É, você conhece outra pessoa além de você e eu? –Conheço o Caim. –E Caim com este “tamainho” é uma pessoa? –É verdade Eva, não é uma pessoa, o que é então? –Esquece! Voltando à vaca fria, os pássaros não cospem filhotes, eles catam bolotas de pedras com aquela gosma amarela que a gente come, e aí aparecem as crias. A gente podia ver se arranjava umas pedras também para fazer a mesma coisa. Detesto carregar caim na barriga. Dá muito chute, é muito mal educado, revira sem aviso, é muito difícil levar um estrupício deste dentro do corpo para lá e para cá, e depois ter que cuspi-lo com tantas dores, meter os dentes naquela tripa catinguenta para cortar. Pior, também, dar o tal de leite para o filhote beber, depois sair catando bichinhos para dar de comer. Isto não é vida! Será que será minha sina? –Eva, não entendo nada disto. Eu passo. Ando comendo o pão que o diabo amassou. As chuvas diminuíram, a terra está mais dura, tenho que lavrar, arar e plantar... ando até fazendo irrigação artificial, mas isso saliniza a terra e as plantas vão ficando atrofiadas e rendem menos. Consegui juntar uma manada de trezentos camelos; eles estufam as corcovas com água e vomitam na lavoura. Com isto estou colhendo trigo, arroz, feijões e uvas. –É Adão, será que o aquecimento global está a caminho? Nós três estamos produzindo desmatamento, queimando matas, fazendo fogueiras para cozinhar, para nos aquecer nos dias frios. Tenho medo, isto pode acabar mal. –Tadinho de Caim Eva, não põem ele diretamente nisto, é um inocente. –Tá bem, tiro ele. –Eva, mudaremos para terras virgens, férteis. A população está aumentando cada vez mais. Olha, no início era só eu, com você dobrou, com Caim triplicou e mais esse outro na sua barriga irá quadruplicar a população da Terra. Palavra de ordem, chispar daqui! –Sim Adão, já fomos expulsos do Éden, acabamos com as matas para fazer as lavouras. A fonte minguou, o riacho secou, a estiagem não melhora, meu medo aumentando, não é bom também iniciar uma blogagem coletiva protestando contra este estado de coisas? –Contra nós mesmos? Querida, pelo que vejo, as blogagens coletivas fazem sucesso relativo entre os que participam, não mudam nada do que abordam por mais que protestem, não são lidos pelos donos do poder, trazem um sucesso meteórico para o líder e pronto! Eva, você não se acha impressionável além da conta? Seus afazeres domésticos tiraram sua visão do mundo. Ainda não notou que por aqui passa uma manada imensa de antílopes magros que nem bacalhau e depois de várias luas retornam gordinhos, rechonchudos, tudo de cara alegre? –É, estou me lembrando, e o que tem isto? –Eva, naquele dia em que trouxe aquele filhote de macaco para a gente comer eu subi naquela serra alta e olhei para onde nasce o sol. Tem muito verde pra lá, o que significa matas, florestas e pastos que fornecem as plantas que os chifrudos comem. Apesar de serem muitos não destroem a vegetação, a produção de oxigênio é imensa e a absorção de Co2 também; não precisamos nos preocupar tanto, entrar em histeria, há muito espaço para a expansão da nossa lavoura. E quando a nova área for ocupada e esgotar-se a gente vai em frente. –Sim, meu homem, quando vamos? – Eva, é um assunto que nem tem que pensar muito, é arrumar os trapos e botar o pé na estrada, quero dizer, trilha. Este negócio de sermos os primeiros da humanidade dos homens é uma desgraça. – Alto lá! Eu sou da humanidade das mulheres! –Baixa o dedo e não grita! Vai começar mais uma discussão? Aqui e agora e doravante será a dona encrenca; vamos decidir o seguinte: a partir de hoje a humanidade é uma só humanidade e nela entramos eu, você e Caim, combinado? –Tudo bem Adão, e o outro Caim? –Minha nossa, vamos esperar que seja cuspido. Ele então entra na contagem do IBGE. . –Concordo Adão. Posso te chamar de Bem? Bem, já te falei que quero ter filhos como os pássaros; vamos descobrir onde eles arranjam as pedras redondas com o filhotinho dentro?
Escrito por Dácio Jaegger às 12h41
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Nem mais e nem menos  Aiiiii!... Esta praga morde -Caim, vai ser o nome deste adãozinho, viu, ele é sua cara. -Minha cara! Nem bigode nem barba ele tem, e é muito pequeno. Tamanho daquele cachorro que saiu gritando o nome dele. Como é que ele sabia? -Minha nossa, o cão não sabia, eu é que aproveitei o nome que ele estava gritando. -E por que está chorando tanto este menino Eva, não é melhor botá-lo longe da gente, ali naquele buraco? -Você quer enterrá-lo? -Não, quando ele parar de chorar você o pega de novo. -Não meu caro bobinho, ele está com fome, me dá aquela formigona ali... pega mais enquanto ele come essa. Xiiii, ela picou o beicinho dele... quer não, está cuspindo... piorou o choro, pega aquele besouro... também não quer, nem a lagarta, minha nossa, nem o ovinho quebrado... -Por que não dá frutinhas para essa criança, ou aquelas flores ali... -Também não quer, ele é um chato, nem estas folhas... também recusa, como vai ser? -Eva, e esta água branca que está escorrendo das suas barriguinhas? Dá para ele. -É mesmo Adão, como não pensei nisto antes, as macacas ficam com suas crias agarradas nos pelos, com a cabeça encostada nas barriguinhas, deixa-me me encostá-lo nelas, vou fazer igual, primeiro colocar aqui. Aiiii!... Esta praga morde. Se morder de novo leva um tapa! -Mesmo assim... viu que maravilha? -Você teve uma grande idéia, querido. Parou de chorar e está esvaziando uma, agora vamos para a outra, nem acredito que isto é que é a comida dele. Sabe, vou te contar uma coisa, depois que nasceu, pensei que ia sair um filhote de cada uma delas. Só agora percebo que elas são duas fabriquinhas... -Eva, eu pensei que era daquelas bolotas do camelo. Vamos chamar isto de leite? -É podemos, e qual vai ser o nome destas bolas do leite? -Podemos colocar nelas o nome de leiteria? -Horrível, o bichinho não está comendo, não está bebendo, ele chupa, mama... pronto!... isto aqui é o mamá ou depois arranjamos um outro nome. ................................................................................................................. -Adão, ando muito preocupada, oito luas já se passaram e este menino só quer saber do tal leite, mama sem parar, haja peito, começo a me esgotar, não quer andar igual à gente; ele é muito teimoso, só gosta de se arrastar nesta poeira, rola para todo lado, é o mais sujo dos bichos, não sabe lamber-se, eu também não vou fazer esta besteira, e não sei se ele pode ser molhado. -Oh Eva, toda vez que chove a gente se molha, acaba sendo um banho, você quer dizer lavá-lo sem esperar a chuva? A gente toma, porque ele não poderia? Assim ele ficaria limpinho e não faria a lama que faz no seu mamá quando mistura este tal de leite com terra; fica tudo grudado ainda bem que a chuva tira. .................................................................................................................. -Adão, mais duas luas já se passaram e Caim já não anda tanto de quatro, já se levanta agarrando nas nossas pernas, né? Veja que lindo! Começa a andar e cai, levanta e cai, um dia ele ainda aprende. Olha, ele fica de braços abertos, chora menos, dá sorrisos largos, já fala gá, gagá, ugá, uga, você sabe o que quer dizer? -Sei não Eva! -Menino, ele está muito espertinho, nem te falei, já come baratinhas, lesmas, besourinhos e mariposas; ovinhos, calanguinhos, ah, filhotinhos de passarinhos só que eu tenho de mastigar bem, fazer uma papinha e dar direto da minha boca para a dele. -Que nojo Eva! -Tem mais Adão, esta dieta prende muito o intestino dele, temos que ter mais coisas, quero que você traga mato também, folhas e frutas, ele tem de imitar os filhotes das macacas. Você tem que observar a comida das crias dos chimpanzés, dos babuínos e trazer igual. Neste planeta imenso não tem ninguém para nos orientar, é olhar e fazer igual. Bom seria se pudéssemos copiar e colar! -Agora quando as pedrinhas brancas que estão crescendo dentro da "boca dele" estiverem maiores ele é que vai mastigar; maiores iguais às nossas poderá então cortar e esmagar, aí sim, ele vai poder comer sozinho, poderá comer igual a nós. -Adão, você não sabia que toda volta de lua escorria um caldo vermelho do lugar que faço xixi, o rachadim, né? É eu nunca deixei você ver. Na lua passada não veio, nesta também... Não escorre mais nada, a fonte secou. E não é que minha barriga está aumentando de novo? Porque parou, parou por quê? É um problema muito difícil de resolver. Somos o primeiro casal da Terra, sem qualquer antepassado, irmãos ou cunhados, não tem viva alma a quem perguntar qualquer coisa. Será que entra algum bichinho em mim quando estou dormindo? Pela boca não é porque mastigo todos, lá em baixo, de dia também não é, porque não vejo e por lá não mastigo.
Escrito por Dácio Jaegger às 11h19
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No mato sem cachorro
-Adão, estamos no mato sem cachorro! -O jeito é arranjar um com algum amigo ou comprar numa petshop. -Falo grosso modo, é um provérbio meu caro. Quero dizer que estamos sós, sem casa, perdemos as frutas do Paraíso, sem alguém para ajudar, sogros e pais, somos sem terra e sem teto. Como entrar no MST? Reforma agrária, nem pensar, está a milênios da gente. Você tem que se virar, no início de civilização é o homem que vai dar duro, nos dois sentidos, para sustentar a família. Esqueceu da reprimenda no despejo? -Não me esqueci, e estou por aqui com você, afinal, se não fosse pela sua desobediência, estaríamos no bem bom, desfrutando as delícias que tínhamos. -Eu não tive culpa de coisa alguma, a responsável pela nossa desdita foi a serpente, aquela sem vergonha, asquerosa, mentirosa, traiçoeira... -Desdita, o que é isto? -Vá para o inferno! Não vá, ele é aqui mesmo, trata de pegar uma enxada e escolher um lugar para fazer uma roça, plantar para colher. -Plantar o quê? -Sei lá, não tenho a mínima idéia. -Vamos nos matricular no Bolsa Família! Lá tem cesta básica; eu sei que é pouco, mas vamos aguentando até chegar à colheita; você pode plantar trigo e com ele farei pães, bolinhos, pizzas... Com cevada, a cerveja. Vamos colher mel de abelhas, tâmaras, maná, e assim melhoraremos o padrão da cesta básica. Vou te contar, o que tem de pior vem nela. -Pô, minha cara! Já está esnobando, se continuar assim ninguém te aguentará, suas amigas vão querer distância de você. -Não haverá distância, não há amigas, existimos nós, e por falar nisso está na hora de você me conhecer. E não te conheço? Fomos apresentados pelo oleiro-carpinteiro-marceneiro-neuro-linguista, há poucas semanas. -Minha nossa, não estou falando de apresentação, isto é coisa do passado, falo... falo, como vou dizer, fazer amor, ou se quiser mais diretamente, é transar. -O que é transar, fazer amor? -Minha nossa, vou passar a vida inteira te dando instruções, guiando, exigindo, adulando, vê se te manca, cara. -Tudo bem, mas pode ser mais gentil, insinuante, fazer beicinho, um olhar provocador? Tudo é novo, reconheço. -Cara, você tem um irmão, um tio, um amigo, algum concorrente? Não! Então és tu mesmo. Não vai me conhecer aqui à luz do dia nem esperar chegar a noite. Vamos para aquela caverna. ............................................................................................................. -Foi bom para você, Adão? - Não sei, só se repetir para poder comparar. -Você foi muito desajeitado, não soube como começar, não me um beijo sequer, tentei lhe beijar e só via você dando tapas em si mesmo. Que tara! -Tara nada, picada de mosquito é mole? Na posição que fiquei recebi os carapanãs e até o mosquito da dengue. Aquilo que raspou da sua barriga não era caraca, eram mosquitos que morreram imprensados no pega para capar. ............................................................................................................... -Adão, há vários dias que me sinto enjoada, ando com muita fome, sinto uma vontade louca de chupar sorvete de chocolate, quero que você saia para buscar para mim. -A esta hora da noite? Que coisa é essa? Isto não existe! -Não me interessa se existe ou não, quero e pronto! Estou com desejo e você não pode me contrariar, se não alguma coisa me diz que vai dar tudo errado. -Gente, que maluquice é esta? O que pode dar errado neste fim de mundo? -Sei não, mas que vai dar errado vai. Quem me diz é minha intuição. -Sua o quê? Intuição? -Deixa pra lá, vai, vai quero o sorvete. -Não vou buscar nada! Se vira. ..................................................................................................................... -Eva, você está comendo demais, sua barriga cresceu muito nestas oito luas, haja filhotes de macaco, passarinhos, ovos, nada te escapa da boca, até para mim começa a faltar comida. - Não fala, estou sentindo umas dores esquisitas, vou botar tudo para fora agora. Vou fazer cocô, tenho que ficar de cócoras, nossa, é muita dor, chamam isto de contração, Mas ao mesmo tempo é uma vontade enorme de fazer um xixizão... ui, ai, ai, ui, uau. Parece um terremoto, o mundo vai acabar, vou desabar, estou vendo tudo preto, ai, ai ui, ui, ai, me segura, ai, ui, não... chega para lá, sai daí... aiiiiiiiiiiiii... -Minha nossa... o que é isto? Não é nada do que você falou. É outra coisa! -Prestenção, isto é uma cria como outra qualquer. Ei, ele está ficando roxo e não falou nada ainda... está amarrado com esta tripa. Me ajuda, dá aqui, tenho que cortar o cordão com os dentes. -Você não pode fazer isto! -Como não posso? O instinto está mandando! Pronto! -Buaaaaaaaaa... -Que legal, ele fala! -Falando nada, está chorando! -Este é o nosso filho. -Meu não, é só seu, saiu de você. Quando sair um de mim, aí será meu filho. -Tá bem! Um dia você vai parir! Vamos ver! Bem ele precisa de um nome. Nisto um cão que havia levado uma pedrada por tentar comer a placenta saiu ganindo: -Caim, caim, caim...
Escrito por Dácio Jaegger às 15h50
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Ordem de despejo
O oleiro-carpinteiro-marceneiro-neuro-linguista voltou-se para Adão: -Ordenei que não comesses o fruto da Árvore do Saber, desobedecestes, destes ouvido à tua mulher e comestes. Por tua causa a Terra estará ferrada, será maldita, dela tirarás teu sustento e o dela, vais arar plantar e enfrentar sol, tempestades, secas e enchentes, ah, para botar pilha em você, virão dilúvio, delúbio, Valério, o carequinha, petralhas, Daniel Dantas, vereadores, deputados e senadores - todos explorarão sua descendência sem condescendência. Comerás o pão, biscoitos, roscas, balas, sorvetes, um simples chester, através do suor de seu rosto. Serão explorados por faraós, imperadores romanos, reis ingleses, presidentes americanos, franceses, holandeses, multinacionais de alimentos e deles usarás alimentos transgênicos, processados, como salsichas, cheios de conservantes - venenos vários - que lhes produzirão toda sorte de doenças, incluindo o câncer. Inventarão e colocarão no saco das maldades as possíveis e as impossíveis e também as inimagináveis... Todos serão afetados pelos séculos e séculos. "-Isto, pensou o oleiro-carpinteiro-marceneiro-neuro-linguista, está me cheirando a scripts de cinema catástrofe". -Adão, tu fostes feito de pó e claro, te tornarás pó novamente, o qual não poderá ser usado para fabricar coisa alguma. Quando fores cremado tuas cinzas não poderão ser usadas para fazer sabão. Avise a teus descendentes! Tua mulher, Virago, porque originada de ti, em outras histórias foi chamada de Eva - e o foi porque o narrador andou "voando", não pesquisou direito, comeu mosca - não poderá sair com ele, então te facultarei que a chame de qualquer coisa. -Senhor, posso manter e chamá-la de Eva? -Quer me cansar? -Porque insistes neste nome esquisito, não conhece um melhor, que tenha mais sonoridade, Madonna, Maryllin, Marisa, Yoko Ono? - Esta palavra, senhor, me veio à cabeça porque é do hebraico hav vah, significa que será mãe de todos os viventes. Imagine, com todo o respeito, ter que consertar o nome dela em todas publicações. Só tenho uma dúvida, mestre, o senhor nos deixará sobreviver? -Sejamos práticos, não haverá mais conversas entre nós, estou expulsando-os aqui e agora deste lugar; tomem estas vestimentas de pele de cervo, prêt-à-porter, que mandei comprar ali na C&A e desapareçam rápido e nem olhem pra trás. Saem da liberdade do Paraíso para o mundo que mais será do que uma prisão. Não esperem por um habeas corpus, salvo conduto ou mandado de segurança. Pelo contrário, terão que dar tratos às bolas para corromper, fraudar, criar contos do vigário, mentir, enganar, toda uma série de virtudes que lhes permitirão avançar na vida para acumular toda sorte de ouro, prata, pedras preciosas, bugigangas, a qualquer preço, passando por cima de parentes, amigos e estranhos, com todo o egoísmo possível e depois cair mortos e deixar tudo para trás. Quando morrerem... é, perderam a imortalidade, nada levarão para o outro mundo, nadica de nada... seus bens serão disputados como carniça pelos descendentes. Parem de tremer e se mandem! -Senhor, não pode dar um jeitinho? -O quêeee? Pensas que está no Brasil, na terra em que todos querem levar vantagem? Lá onde se criam dificuldades para venderem facilidades? Onde se legisla em causa própria? Onde sentenças judiciais são ditadas nas altas cortes pelos advogados de defesa dos réus? Olha não sou senador nem deputado, governador ou prefeito, muito menos vereador ou suplente de qualquer coisa. Vão em frente! O casal não teve saída a não ser obedecer, principalmente quando viram uma pessoa com asas enormes e como um pássaro, voando, chegar nas proximidades descendo a uns cinco metros e pondo-se em guarda. Seus olhos ferozes fitaram os companheiros. Carregava aquele corpulento anjo um sabre de luz, cintilante e versátil, desses que foram usados em Guerra nas Estrelas, por Luke Sky Walker. Como demonstração o querubim apertou um dos botões e a arma a laser disparou raios de três cores simultaneamente derretendo uma pequena rocha. No seu lugar a poça de lama quente e rubra que se formou esfriou e se mostrou como uma peça laminar granítica. Adão fez o sinal da cruz automaticamente, primeiro com a mão direita e depois com a esquerda (atendendo aos canhotos), como as pessoas atualmente na hora do aperto se persignam - passaria muitos dias abobalhado sem saber de onde havia tirado aqueles movimentos e não achou ninguém até hoje para explicar-lhe tal ato. A Árvore do Saber tinha ficado para trás. Dali em diante ele e sua consorte, os dois sem sorte, mais toda sua descendência sem a ciência, teriam que descobrir tudo sozinhos.
Escrito por Dácio Jaegger às 14h35
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Nem mais e nem menos O pomo da discórdia -Cof! Cof! Cof! -Que é isto Adão? Nunca ouvi esta palavra... o que quer dizer? E estes olhos esbugalhados? Você está ficando todo roxo, vai ser o meu adorável roxinho daqui para a frente? Vivaaaaa! Tudo no início é precário, depois vêm os aperfeiçoamentos. Adão ainda não tinha aquilo roxo como bradou milhares de anos depois, na Ilha de Vera Cruz, um tal Sr. Collor. -Cof! Cof! COF! COF! Cof, cof, coof, coooff, coooffff... coooof... Pimba! e "esticou as canelas", a primeira do mundo - nesta época não havia conotação com a morte, não se assustem ele sobreviverá. -Ah, não sei o que fazer, não temos manual de uso, a amiga rastejante escafedeu-se, será esta a palavra certa? Adãozinho queridinho, cospe esta coisa da sua güela, fala comigo, fala, ah, tô sózinha no meio do mato, não tenho mamãe, nem sogrinha pra chamar, nenhuma cunhada... faaaaalaaa! e ficou Eva repetindo sem parar; seu vocabulário e raciocínio eram de uma criança de 13 anos, 7 meses e 13 dias. -Uga, uga, ga, gaga, uo, uau, sua pele arroxeada, depois azulada, passa a amarelo-laranja e fica vermelha; pletórico, murmura algo ininteligível e fica de cócoras; volta à sua cor natural, qual? Adão põe-se de pé, mãos em concha na boca e serelepe grita aaôôôôôaooôôaoaôôooo... mim Tarzan, o rei da floresta. Eva com um raciocínio de 17 anos disse-lhe que deixasse de ser besta, que ele não era rei de lugar algum, que ali não era mata e sim um jardim, o Paraíso, mas que estava achando-o mais bonito com aquela corcovinha no pescoço e lindo e maravilhoso com a voz máscula que ele estava usando. -Não estou usando voz alguma, ela é minha, você não vê que é por causa desta entalação da fruta que me deu? Você não ficou assim, estará para sempre aleijada, rá, cof, cof, rá, rá... Eva pensando como uma mulher de 23 anos diz que ela não pode ter voz grossa, pois é coisa de macho. Sua voz tem que ser delicada, maviosa, como a voz dos anjos, - você sabe, os anjos não tem sexo nem nexo e entenda que não são afetados, termina. E a uma só voz exclamaram: isto será conhecido como o pomo de Adão !!!!!!! Porque pomo? pergunta Eva. -Peraí, aqui tem um verbete na folha da Árvore do Saber, diz Adão e lhe responde que a palavra significa caroço e que pelo que havia lido numa revista rural era semente de maçã que agora pertencia ao corpo dele para todo o sempre. -Ah, não, acontece que a semente da maçã é muito pequena e renderia no máximo umas verrugas nas cordas vocais. Sua voz seria horrível, você soltaria roncos e grunhidos! Foram folhear uma enciclopédia e descobriram que na verdade o engasgo se dera com o "pseudofruto formado pelo ovário" e não com o receptáculo floral, carnoso e muito desenvolvido, que é a porção comestível de frutos como ex., a maçã, que desceu para o seu destino. -Adão, eu não tinha reparado o seu balancim como o vejo agora. -É, eu também não tinha reparado seu rachadim com estes olhos cobiçosos. -Cobiçosos, será que é a mesma coisa que estou sentindo, bem, não pode ser a mesma coisa, afinal somos diferentes e não pode haver sentimentos iguais. -Mas tem que ser muito parecidos se não estaríamos cada um andando para lados contrários. Não estaria ocorrendo essa atração mútua. Ou você não sente realmente o que penso. Está com o pensamento na cobra? -Cê besta, um bicho frio daquele, com a língua partida no meio, lembra que ela falava meio fanho, pô, pensando em discutir a relação logo agora? -Tudo bem, deixemos para lá, vamos até ao lago azul? -Vamos, mas antes temos que cobrir nossas vergonhas, não fica bem andarmos assim. Pega essa folha de parreira e coloca aí, ah você precisa de duas e grandes. E saíram lado a lado de mãos dadas, passeando os acessórios. Eram 14 e 27 minutos, hora de Greenwich, sol bem alto. -Adãoooonnn! -Eeevaa!! ressoa a voz do oleiro-carpinteiro-marceneiro-neuro-lingüista, onde estão vocês? Aquiiii... -Má tarde! -Boa tarde, diz o mancebo. A manceba ecoa. -Sua voz está grossa meu caro, o que houve, está resfriado? -Argh, é que... sabe... bem... fala para ele Eva... -Não é necessário, já sei o que aconteceu. Estão sentindo frio e por isso estão usando estes cobertores? -Não, é que estamos pelados, nus. -NUUUUUUUSSSSS, e como sabem disto? -Foi a Eva que me falou. -EVAAA... -Senhor, foi a serpente que me enganou. -Cadê a serpente? -Acho que o gato comeu. -Cadê o gato? -Foi pro mato. -Cadê o mato? -Acho que o fogo queimou. -Cadê o fogo? -A água apagou. -Cadê a água? -O Boi bebeu. -Cadê o boi? -Amassando o trigo. -Cadê o trigo? -A galinha espalhou. -Cadê a galinha? -Botando ovo. -Cadê o ovo? -O padre bebeu. -Páara, que não existe padre, começou o jogo de empurra? Trombetas ecoaram o alarido mais estrondoso que poderia ser ouvido por aquelas bandas -Quero aquele ser abjeto aqui imediatamente! E foi achada e trazida segura pelos braços a esperneante serpente, escamas eriçadas, a língua murcha, caída para o lado esquerdo, os olhos tão espremidos e a cauda chocalhando com seus guizos, uma vergonha. -Sua isso, sua aquilo, isto e mais aquil'outro... Tu traístes os ideais da bondade, passastes a perna na nobreza, serás doravante maldita entre animais e bestas; ficarás sem pernas e braços, passa-me os membros já, e andarás esfregando a barriga no chão e comerás terra todos os dias da tua vida. Doravante seus descendentes pisarão em tua cabeça e tu tentarás morder seus calcanhares, digo, picarás. Entenda o que estou falando! Nada a ver com Aquiles. -Senhor, tende miseri... -Cala-te para sempre! Entrega-me tuas cordas vocais, rápido! Não sei onde estou que não te transformo em minhoca de uma vez por todas!
Escrito por Dácio Jaegger às 16h09
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